Conduzir não tem idade, mas exige avaliação

| Revista ACP

O que deve determinar se um condutor com carta de condução no ato da revalidação pode ou não continuar habilitado? 

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A idade, por si só, pode não ser determinante para decidir se um condutor deixa de estar apto para conduzir. O que deve decidir se uma pessoa com carta, a partir de uma determinada idade, está ou não apta para conduzir são os resultados de uma avaliação individual das capacidades físicas, mentais e psicológicas do automobilista.

É essa a ideia que o médico Rodrigo Costa e Silva e o diretor da formação do ACP, Humberto Carvalho, transmitem no mais recente podcast do clube, dedicado à condução em idade avançada.

Nesse sentido, focando a conversa na necessidade de existirem avaliações de aptidões presenciais por uma equipa de médicos, os dois responsáveis alertam para a necessidade de se rever o atual sistema de revalidação da carta de condução.

Atualmente, um condutor pode passar cerca de 40 anos sem qualquer avaliação médica obrigatória depois de obter o título de condução, uma realidade que os dois convidados consideram desajustada face ao aumento da esperança média de vida e à evolução das condições de saúde da população.

Segundo Rodrigo Costa e Silva, as alterações da visão começam frequentemente a manifestar-se a partir dos 40 anos, enquanto doenças como a diabetes, a hipertensão ou algumas patologias neurológicas se tornam mais frequentes com o avançar da idade.

Embora nem todas estas condições impeçam a condução, devem ser identificadas atempadamente para que possam ser acompanhadas e, sempre que possível, corrigidas. 

É, precisamente, por isso que o ACP propõe a introdução de exames médicos presenciais para todas as revalidações de cartas de condução, o que permitiria uma monitorização gradual do estado de saúde dos condutores.

A medida, defendem os especialistas, contribuiria para aumentar a confiança no sistema e reduzir riscos nas estradas, sem colocar em causa o direito à mobilidade.

Mas a aptidão para conduzir não depende apenas da saúde. Humberto Carvalho recorda que muitos condutores nunca voltam a atualizar os seus conhecimentos desde o dia em que obtêm a carta. Entretanto, a legislação altera-se, os veículos incorporam novas tecnologias e as infraestruturas rodoviárias evoluem, exigindo novas competências.

 

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Para o responsável do ACP, investir na formação contínua é tão importante quanto garantir avaliações médicas regulares.

Os especialistas rejeitam, contudo, a ideia de estabelecer uma idade máxima para conduzir.

Rodrigo Costa e Silva afirma que já avaliou pessoas com mais de 90 e até 100 anos plenamente capazes de conduzir, enquanto outros condutores revelam limitações muito antes dessas idades. A decisão, defende, deve resultar sempre de uma avaliação clínica individual e nunca de um critério exclusivamente cronológico.

Quando surgem dúvidas sobre a capacidade de um condutor, o médico pode solicitar pareceres de outras especialidades, como neurologia, cardiologia ou oftalmologia.

Em vez de uma decisão definitiva, existem ainda soluções intermédias, como restringir a condução ao período diurno, limitar a circulação a determinadas distâncias ou antecipar a próxima avaliação médica.

Outro aspeto destacado durante a conversa foi o papel das famílias. Muitas vezes são os familiares que primeiro identificam alterações nas capacidades do condutor e ajudam a tomar uma decisão que nem sempre é fácil.

Abdicar da condução representa, para muitos idosos, perder autonomia e independência. Ainda assim, os intervenientes sublinham que a prioridade deve ser sempre a proteção da vida, tanto do próprio condutor como dos restantes utilizadores da estrada.

A mensagem deixada é clara: mais do que definir uma idade para deixar de conduzir, importa criar um sistema de avaliações médicas e de atualização de conhecimentos que acompanhe os condutores ao longo da vida

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