A portuguesa b.again, empresa do Grupo DST especializada na recuperação e reciclagem de baterias de automóveis, está a consolidar-se como um dos principais atores nacionais na gestão do fim de vida das baterias utilizadas em veículos elétricos.
Com a mobilidade elétrica em crescimento, a b.again atua para minimizar o desperdício de recursos ao reciclar baterias de lítio. Desde 2024, já recolheu 500 toneladas e têm em vista a expansão da sua atividade para Espanha.
“A reciclagem de baterias de iões de lítio vai permitir que a eletrificação da mobilidade e da nossa sociedade possa ter acesso às matérias-primas críticas necessárias para fabricar novas baterias”, afirma João Gomes, presidente executivo (CEO) da b.again, no podcast do ACP Made in Portugal.
O responsável explica que a empresa nasceu da necessidade de responder a um desafio crescente associado à transição energética e à mobilidade elétrica.
A b.again atua em duas áreas-chave: a recuperação de materiais provenientes de baterias em fim de vida e a instalação de sistemas estacionários de armazenamento de energia. A recuperação de matérias-primas críticas como lítio, níquel, cobalto ou manganês é essencial para reduzir a dependência europeia de mercados externos.
“Quando compramos uma viatura elétrica estamos a pagar essas matérias-primas. Recuperá-las em espaço europeu é manter esse valor acrescentado e reduzir a necessidade de nova exploração mineira”, comenta.
Atualmente, a b.again recolhe entre 30 e 40 toneladas de baterias por mês e dispõe de uma capacidade de armazenamento próxima das 260 toneladas.
Como se processa a reciclagem das baterias?
As baterias recolhidas passam por um processo rigoroso de inspeção e permanecem em armazenamento controlado durante pelo menos 15 dias para monitorização de eventuais alterações térmicas ou elétricas. De acordo com João Gomes, a empresa construiu mais de 180 compartimentos de armazenamento em betão armado, denominados de “sarcófagos”, capazes de confinar possíveis incidentes.
Antes da desmontagem, a energia residual existente nas baterias é recuperada e reaproveitada na própria unidade industrial.
“Toda a energia que temos dentro dessas baterias em fim de vida é reutilizada. A nossa fábrica acaba por funcionar também num ciclo mais fechado”, conta o gestor.
Após a descarga completa e um período adicional de estabilização, as baterias são desmontadas e encaminhadas para uma linha de reciclagem automatizada. O processo permite separar materiais como cobre, alumínio, aço, eletrólito e a denominada “massa negra”, composta pelos materiais ativos que contêm lítio, níquel, cobalto e outros elementos estratégicos.
João Gomes salienta que o processo minimiza o impacto ambiental, uma vez que os procedimentos decorrem a baixa temperatura com recurso a tecnologias recentes e sistemas de segurança.
A segunda vida das baterias
Nem todas as baterias recolhidas seguem para reciclagem. Quando o estado de saúde da bateria se situa entre 80% e 95%, a empresa pode reconfigurá-las para aplicações estacionárias de armazenamento energético. Nesses casos, refere o CEO da b.again, “as baterias podem ser aplicadas, por exemplo, para gerir a energia de um sistema fotovoltaico ou eólico, ganhando mais sete a dez anos de utilização”.
A b.again recebe atualmente baterias provenientes de veículos elétricos em fim de vida, baterias danificadas por acidentes ou incêndios, bem como componentes substituídos durante operações de manutenção.
Neste podcast, João Gomes revela ainda que a empresa está a inovar nesta área ao conseguir digitalizar os procedimentos, de modo a que seja possível rastrear as baterias reciclas e o respetivo ciclo de vida. Desde a recolha até à reciclagem, a b.again criou um "passaporte digital da bateria" - algo previsto nas regras da União Europeia.
“Conseguimos saber quando a bateria foi armazenada, testada, descarregada, reciclada e que materiais resultaram desse processo”, garante João Gomes.
A rastreabilidade vai permitir, no futuro, identificar a origem dos materiais reciclados incorporados em novas baterias.
“Quando comprarmos um veículo, poderemos exigir o passaporte da bateria e saber, por exemplo, que contém 10% de lítio reciclado e onde esse material foi recuperado”, acrescenta.
Futuro passa por Espanha
A empresa pretende avançar para o mercado espanhol. Segundo João Gomes, talvez o faça ainda em 2026. A b.again é, atualmente, a única unidade na Península Ibérica a operar para este tipo de reciclagem de baterias automóveis de alta tensão, através de processos de baixa temperatura.
“Temos recebido pedidos de parceiros e de algumas marcas para operarmos em território espanhol”, revela. No entanto, a expansão pode ser algo complexo.
Apesar do crescimento do setor, as restrições à circulação transfronteiriça de resíduos continuam a dificultar o transporte dos materiais recuperados para unidades especializadas de refinação.
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