O regime de licenciamento de testes de condução autónoma em Portugal entra em vigor este mês. O diploma foi aprovado em Conselho de Ministros em abril e publicado a 8 de junho em Diário da República.
Vamos começar a ver carros sem motorista a circular nas estradas? É seguro para peões e automobilistas? António Reis Pereira, especialista em mobilidade do Automóvel Club de Portugal, responde a estas e outras questões, em mais um podcast ACP.
Os testes de mobilidade autónoma são uma novidade para Portugal mas, do outro lado do oceano Atlântico, são já uma realidade em expansão. Há mais de dez anos a Tesla dava a conhecer o Autopilot, um sistema inovador de assistência à condução. Em 2016, os Estados Unidos aprovavam uma legislação que permitia os testes em estradas públicas.
“Nos Estados Unidos, a Google, a Waymo, que é a empresa que pertence à Google, começou na cidade de Phoenix, no Arizona. Começou com alguns carros autónomos numa zona onde passava pouca gente, com ruas largas, a uma velocidade altamente limitada.”
Hoje, esta tecnologia está presente em cidades como São Francisco, Los Angeles e Phoenix, em de serviços de robotáxis. Foram necessários milhões de quilómetros e outras tantas horas de simulação para conseguir desenvolver os táxis autónomos que circulam nas estradas americanas.
O especialista explica que “para que existam carros autónomos na estrada, a questão não é só ter a tecnologia. Essa de facto já existe há imenso tempo”. A questão prende-se num conjunto de condições que são necessárias para que este sistema funcione, efetivamente, na via pública.
“Isto precisa de milhares e de milhares de quilómetros para recolher muitos dados, que vão depois dotar a inteligência artificial do carro de experiência, para se poder comportar no trânsito.”
O ecossistema que suporta os testes de condução autónoma tem vindo a ser desenvolvido por gigantes tecnológicas como a Google, nos EUA, e a Baidu, na China.
“Na Europa já temos testes em alguns sítios. A Waymo, que pertence à Google, já está a testar em Londres. Agora, os países, um após o outro, estão a começar a autorizar os testes.” É o caso de Portugal que, embora tenha dado um passo positivo, entra atrasado na corrida à condução autónoma, diz o especialista do ACP.
Antes de irmos à boleia de um carro sem condutor, é necessário, em primeiro lugar, fazer ensaios. À medida que o carro se desloca são recolhidos dados sobre as vias, o ambiente rodoviário e restantes elementos na estrada e o funcionamento do veículo.
“O comportamento dos portugueses no trânsito é específico de Portugal. Portanto, para introduzirmos mobilidade autónoma, por exemplo, em Lisboa, temos de usar os nossos próprios algoritmos - foi isso que agora se permitiu”, explica António Reis Pereira.
Os testes serão feitos por empresas do setor automóvel, promotores de mobilidade, instituições de ensino superior e institutos de investigação.
O preço elevado destes veículos vai fazer com que, numa primeira fase, sejam utilizados por operadores de mobilidade. “Um carro destes nunca custa menos de 150 - 200 mil euros. Carros deste preço dificilmente serão comprados por pessoas individuais. Pelo contrário, serão usados em esquema de mobilidade partilhada”, esclarece.
A introdução de carros autónomos na rotina dos portugueses vai trazer inúmeras vantagens: “dotar toda a população de mobilidade”, “racionalizar a utilização da via pública” e contribuir “o mais possível” para a redução da sinistralidade rodoviária.
A segurança é garantida, garante António Reis Pereira, uma vez que estes automóveis vão circular a uma velocidade de 20 km/hora inferior ao limite estabelecido no Código da Estrada. Na sua ótica, os maiores entraves à evolução destes sistemas são a legislação europeia e o seguro automóvel. Lembra que o governo português estabeleceu aumentar o valor de cobertura do seguro obrigatório para o quádruplo.
O especialista do ACP acredita que Portugal está preparado e tem players no ramo da mobilidade capazes de aplicar estes sistemas de condução autónoma, num espaço de 5 anos.
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