BEN abre caminho a novo conceito de mobilidade

| Revista ACP

CEiiA desenvolveu o primeiro carro elétrico português, que deverá chegar ao mercado em 2027. Mas o objetivo é mais ambicioso: desmaterializar a propriedade automóvel e pelo caminho contribuir para a criação de um construtor de média dimensão no país.

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O centro de engenharia e desenvolvimento CEiiA criou o primeiro automóvel elétrico português, um microcarro da tipologia M1 que começa a ser produzido este ano e deverá ser comercializado a partir de 2027.

O BEN, assim é designado o modelo, pretende ir ao encontro dos planos da União Europeia - pequeno, acessível e elétrico -, e posicionar Portugal na indústria da mobilidade ao criar um novo conceito - a desmaterialização da propriedade de um veículo.

Neste podcast, a administradora com o pelouro da tecnologia (chief technology officer ou CTO), Helena Silva, explica a visão por detrás do BEN e revela um objetivo do CEiiA a partir do microcarro: abrir portas à criação de um construtor automóvel de média dimensão 100% português. 

“Criámos o BEN para transformar a forma como as pessoas se movem nas cidades”, afirma a responsável, sublinhando que a iniciativa cruza sustentabilidade, mobilidade e inovação tecnológica.

BEN vem de BeNeutral, um consórcio que agrega mais de 40 entidades que está na origem do microcarro e que integra as agendas mobilizadoras do Plano Recuperação e Resiliência (PRR).

No entanto, a génese do veículo, apesar da aceleração promovida pelo PRR, remonta aos primeiros anos de atividade do CEiiA, quando a organização procurava identificar um posicionamento distintivo para Portugal na indústria automóvel.

“Acreditamos que um veículo citadino seria uma boa aposta para o nosso país, dada a nossa dimensão e as características da nossa indústria”, explica Helena Silva.

Produção já começou

Depois de ter recebido homologação europeia, o BEN encontra-se atualmente numa fase inicial de produção. O CEiiA está a fabricar os primeiros exemplares numa unidade interna do centro de engenharia designada BEN Garage.

“Estamos neste momento em produção artesanal, a produzir os primeiros lotes de 10 unidades”, detalha a CTO, enquanto se encontra em preparação uma futura unidade industrial que permita escalar a produção para centenas de veículos e reduzir custos.

Entretanto, foi fechado um acordo com a Micro e a AMFI, que fabricam o Microlino, para fabricar o microcarro português também Itália, nomeadamente na unidade de Turim da AMFI.

O objetivo passa por desenvolver uma rede europeia de produção descentralizada, incluindo Portugal. 

"O nosso objetivo é produzir o BEN na Europa, com unidades de produção descentralizados, quer em Itália quer noutros países, mas também gostávamos de criar uma unidade de produção em Portugal, mas para isso precisamos de criar condições#, afirma.

"O veículo já está numa fase de produção na versão que está homologada, mas é preciso de evoluir o modelo para reduzir custos e para podermos alargar a produção em larga escala", acrescenta.

Quando chegar ao mercado, o BEN não vai ser comercializado sob a marca CEiiA ou por uma já estabelecida no mundo automóvel, embora a Toyota, a Mitsubishi e a Stellantis sejam parceiros do CEiiA. "Criámos uma spin-off que é a Ben for Us, que vai ser responsável pela industrialização, pela comercialização e pela operação. do BEN", explica Helena Silva.

Ao longo do tempo, de parceria em parceria para consolidar a referida rede europeia, o CEiiA pretende que o BEN alavanque o surgimento de um fabricante de média dimensão português, que cumpra todas as fase de produção.

“Ou é agora ou nunca. É uma oportunidade única para nós posicionarmos o nosso país nesta nova, não é indústria automóvel, é indústria da mobilidade”, defendeu a responsável.

O preço estimado para adqurir um BEN começa nos oito mil euros.

 

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Mais do que um carro elétrico

Embora o BEN se enquadre na crescente categoria dos microveículos elétricos urbanos, Helena Silva defende que o projeto se distingue pela sua componente digital.

“O que nós procuramos no BEN não foi só a componente física (...), mas acima de tudo a sua plataforma digital”, conta.

O veículo foi concebido para funcionar numa lógica de utilização partilhada entre grupos de utilizadores que possam ser coproprietários do automóvel, promovendo uma utilização mais eficiente dos recursos.

A responsável considera que os modelos tradicionais de propriedade automóvel estão a ser desafiados por novas formas de utilização.

“O nosso objetivo foi criar um novo conceito de mobilidade que desmaterialize a propriedade, ou seja, que privilegie o uso em vez da posse dos veículos”, refere.

Além de ser totalmente elétrico, o BEN foi desenvolvido para ser permanentemente conectado e preparado para futuras funcionalidades de condução autónoma. “O BEN é autonomous ready”, adiantou.

Um ícone de sustentabilidade para as novas gerações

O CEiiA pretende posicionar o BEN como um símbolo de uma nova cultura urbana e ambiental. O veículo poderá ser utilizado por comunidades, condomínios ou grupos de amigos, promovendo a partilha e reduzindo a necessidade de múltiplos automóveis.

“Queremos que o BEN venha a ser um ícone de sustentabilidade”, diz a CTO do CEiiA, acrescentando que o conceito poderá ter particular impacto junto dos mais jovens. “É um carro que pode ser conduzido a partir dos 16 anos”.

Com os primeiros veículos já em produção e planos de expansão para o mercado europeu, o BEN assume-se como uma das mais ambiciosas iniciativas portuguesas na área da mobilidade, procurando demonstrar que a inovação desenvolvida em Portugal pode competir numa indústria em rápida transformação.


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