A inovação nos setores automóvel e da mobilidade não está apenas nos motores ou nas baterias. Raramente se pensa no pneu, mas o pneu é também sinónimo de desenvolvimento tecnológico e Portugal, com a Continental Mabor, está no seu mapa de inovação.
A evolução tecnológica observa-se desde o estudo da locomoção de animais, como o Gato, ao favo de mel da abelha, pela sua forma hexagonal, e como se pode aplicar isso ao desenho do pneu até ao desenvolvimento de software de rastreamento e validação de pneus, criado em em Portugal e usado em 22 unidades do grupo germânico.
É esta ideia que Pedro Carreira, presidente da Continental Mabor, transmite neste episódio da série Made in Portugal.
“Nós olhamos e realmente não consideramos o pneu como uma parte integrante da revolução tecnológica que o automóvel e a indústria trouxeram. Mas cada pneu tem tecnologia”, começa por afirmar o gestor.
Localizada em Lousado, em Vila Nova de Famalicão, a Continental Mabor produz mais de 50 mil pneus radiais por dia, para veículos ligeiros e SUV, comerciais ligeiros e para maquinaria agrícola e off-road. Os últimos dados oficiais da unidade de Lousado apontam para uma produção anual de 19,6 milhões de pneus.
“Entre 60% a 70% do que produzimos fica na Europa. Por países, exportamos mais para a Alemanha, Estados Unidos e Coreia do Sul”, revela o presidente da unidade, realçando que se se incluírem OEM’s (fábricas onde os produtos criados incorporam outras componentes e são vendidos por outra marca) também Espanha e França entram no topo.
E todas as marcas do mundo trabalham com pneus produzidos em Portugal? “Porsche, Rolls-Royce, Jaguar, Mercedes, BMW, Volkswagen, Audi, Fiat, Daimler, Chrysler, BYD. Todas essas…”, exemplifica.
E embora a unidade produza pneus de ultra performance, Pedro Carreira nota que não produzem para marcas como Ferrari ou Maserati, por não se justificar o custo de produção para o potencial retorno. “É muito complexo fazer pneus para marcas vendem 100 carros por ano”, resume.
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O pneu do futuro
No último século os pneus evoluíram significativamente. Hoje já existem pneus capazes de integrar sistemas inteligentes e de monitorizar desgaste, temperatura, pressão e comunicar com o veículo. Então, como vai ser o pneu do futuro?
“No futuro? Não, [esse pneu] já existe hoje”, afirma o presidente da Continental Mabor, referindo-se a pneus com sensores integrados que permitem manutenção em tempo real e maior segurança, que atualmente a unidade de Lousado já faz.
A sustentabilidade é outro eixo em foco para Pedro Carreira. O gestor aponta-o como crucial para o futuro do setor. As opções mais ecológicas têm sido tomadas, no entanto, “o 100% sustentável ainda não é amanhã, mas talvez depois de amanhã”, segundo o responsável.
De acordo com o gestor, a Continental Mabor foi a “primeira empresa” do grupo alemão a avançar para a produção de um pneu sustentável, com materiais recicláveis e processos mais amigos do ambiente. “É um pneu com até 65% de materiais sustentáveis, de origem reciclada ou de origem ambientalmente responsável”, que a unidade de Lousado produz desde 2023.
A transformação vai além do produto
Pedro Carreira explica que o centro de desenvolvimento da multinacional germânica permanece na Alemanha, mas há em Portugal um centro de inovação, que desenvolve soluções digitais, atualmente utilizadas globalmente.
“Desenvolvemos software [que permite rastrear e validar procedimentos e pneus] que foi exportado para as 22 fábricas do grupo”, explica.
Num setor cada vez mais competitivo e pressionado pela transição para o elétrico, a capacidade de inovar rapidamente é decisiva. “Os ciclos de inovação passaram de anos para dias”, alerta Pedro Carreira, defendendo maior agilidade para acompanhar o ritmo global.
O futuro do pneu passa por inovação tecnológica, mas ainda há muito trabalho mecânico e químico a ser desempenhado. E, nesse sentido, algo tão inesperado como a articulação dos movimentos de um gato ou as características das células hexagonais do favo de mel das abelhas, pela sua resistência, também ajudam.
“Estudamos animais para percebermos o comportamento da natureza e o funcionamento do pneu em solo. E é uma patente. Quando o gato que tem uma pata pequenina e a põe no chão, devido à pressão, aumenta o tamanho da pata. A pata abre, distribui o peso do animal e ganha atrito”.
Ao gato acresce a abelha e o seu favo de mel. “Se [a superfície em contacto com o solo] tiver uma forma de hexágono, em vez de ser um bloco único, vai ter mais áreas de contacto… Trabalhamos muito no desenho dos blocos de pneu, no desenho do ombro, dos materiais que constituem a superfície do pneu e nos materiais que estão dentro do pneu”, conclui, indicando que há um conjunto de materiais que, “jogando entre eles, garantem as adaptações entre cada pneu e o veículo para o qual ele é desenhado”.