Com um passado profundamente enraizado na memória coletiva dos portugueses, a Famel está de regresso, mas longe de ser apenas um exercício de nostalgia.
No mais recente episódio do podcast do Automóvel Club de Portugal, o jornalista José Varela Rodrigues conversou com Joel Sousa, o responsável por trazer de volta a icónica marca, agora com uma visão totalmente elétrica e orientada para o futuro.
Fundada em 1949 e desaparecida no início dos anos 2000, a Famel renasce pelas mãos de Joel Sousa, que adquiriu os direitos da marca em 2014.
O objetivo nunca foi apenas recuperar o passado, mas reinterpretá-lo à luz das novas exigências da mobilidade.
“A marca tinha um valor emocional enorme, algo que muitas empresas tentam construir durante anos. Mas sabíamos que não podíamos ficar presos ao saudosismo”, explica.
A aposta na eletrificação surgiu não só por convicção, mas também por estratégia.
Numa altura em que o mercado das duas rodas elétricas ainda dava os primeiros passos, a decisão permitiu à nova Famel posicionar-se num segmento com potencial de crescimento e evitar os elevados custos e exigências regulatórias associadas aos motores de combustão.
“O nosso objetivo sempre foi internacional. O mercado português é importante, mas demasiado pequeno para sustentar um projeto desta dimensão”, sublinha.
Atualmente em fase final de homologação europeia, a nova moto da Famel (equivalente a uma mota com 125 cm3) deverá começar a ser comercializada ainda este ano.
Com cerca de 120 km de autonomia e velocidade máxima de 100 km/h, foi pensada sobretudo para uso urbano e suburbano, respondendo a necessidades reais de mobilidade quotidiana.
Um dos elementos-chave do projeto passa pela utilização do cluster industrial português, nomeadamente na região de Águeda, onde são produzidos e montados vários componentes.
Apesar de recorrer a alguns fornecedores internacionais, todo o desenvolvimento, da engenharia ao design, é nacional.
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“Queremos mostrar que é possível fazer tecnologia em Portugal, com qualidade e capacidade de competir lá fora”, afirma.
Numa fase inicial, a produção deverá arrancar com cerca de 100 unidades (praticamente esgotadas) com planos para escalar até às 6000 motos nos próximos anos.
Mais do que um produto, a Famel quer afirmar-se como uma marca de lifestyle, apostando no design diferenciado, em soluções como baterias amovíveis e numa forte componente tecnológica e de conectividade.
Ainda assim, o caminho não tem sido isento de desafios. Desde a captação de investimento à construção de uma rede de fornecedores fiável, passando pela complexidade da produção, o projeto tem exigido uma constante capacidade de adaptação.
“Não há zona de conforto. Estamos sempre a aprender e a resolver problemas novos”, admite Joel Sousa.
No final, o objetivo vai além da própria marca. Para o responsável, o relançamento da Famel é também uma forma de impulsionar o ecossistema nacional e inspirar novos projetos.
“Estamos a contribuir para criar conhecimento, não só dentro da empresa, mas também nos nossos parceiros. E, acima de tudo, queremos mostrar que é possível fazer renascer uma marca portuguesa e levá-la mais longe”, concluiu.
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