As marcas dos grupos Stellantis, Volkswagen, Mercedes-Benz, BMW, Nissan e Honda vão ser das mais afetadas pelo efeito da guerra no Irão nas cadeias logísticas e preços energéticos, de acordo com uma análise da Morningstar DBRS.
A guerra “introduz uma nova camada de pressão macroeconómica e geopolítica” na indústria automóvel”, que já se encontrava com problemas no horizonte.
Primeiro, entre 2020 e 2021, o impacto da pandemia de covid-19, agravada por uma escassez de semicondutores, a que se seguiu uma escalada nos preços energéticos por causa da guerra da Ucrânia, a partir de 2023. Mais recentemente, os grupos automóveis ainda procuram um equilíbrio entre a agressiva diplomacia norte-americana, com as tarifas alfandegárias adicionais de Donald Trump, e a crescente concorrência chinesa.
Agora, as implicações da guerra do Irão incluem “potenciais perturbações na cadeia de abastecimento, nos custos logísticos, nos preços das matérias-primas e nos custos energéticos”.
“A curto prazo, o aumento dos custos logísticos afetará a base de custos e o fluxo de caixa da maioria dos fabricantes e fornecedores, especialmente na Europa e na Ásia, enquanto permanecem isolados dos aumentos temporários dos preços da energia e dos materiais, graças a hedges contínuos e acordos contratuais”, lê-se na análise da DBRS.
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“Se o stress geopolítico persistir por meses”, prossegue a agência de rating do Canadá, “é provável que o setor comece a sofrer uma compressão acentuada das margens, à medida que os custos mais elevados dos recursos começarem a repercutir na base de custos”, num momento em que o perfil do crédito automóvel já estava “enfraquecido”.
A DBRS observa, atualmente, “uma tendência negativa” na Stellantis, Volkswagen, Mercedes-Benz, BMW. “A fraqueza não se limita à Europa”, verificando-se também “tendências negativas” na Honda e Nissan, com a Ásia a “espelhar a vulnerabilidade de todo o setor a choques geopolíticos e macroeconómicos”.
De que forma as marcas podem ficar a perder?
Empresas de transporte marítimo como a Maersk, Hapag-Lloyd e CMA CGM, estão a evitar rotas pelo Canal do Suez e pelo Estreito de Ormuz, redirecionando os navios para chegar à Europa pelo Cabo da Boa Esperança. A medida vai aumentar o período de trânsito dos navios e, consequentemente, encarecer os fretes, o que penaliza os tempos de produção e ameaça criar escassez de stock na indústria.
Os construtores europeus “estão particularmente expostos nas rotas de trânsito Ásia-Europa”, porque “dependem fortemente de componentes eletrónicos, e de componentes de bateria provenientes da Ásia”, tornando-os “mais vulneráveis” a tempos de trânsito prolongados e custos de frete mais elevados.
“Os atrasos obrigam os fabricantes a manter um stock de segurança extra - aumentando os custos e causando falhas nos prazos de entrega - e levam à reprogramação e redução da utilização da capacidade”.
Ora, um maior zelo sobre os stocks de componentes e materiais essenciais, “precavendo possíveis interrupções”, vai levantar problemas.
As matérias-primas representam cerca de 50% do custo total de fabrico dos veículos, tornando o setor automóvel um setor industrial intensivo em materiais.
Alumínio, aço e cobre são materiais essenciais
Um automóvel europeu contém em média cerca de 200 kg a 250 kg de alumínio, valor que aumenta nos SUV e nos veículos elétricos. Além dos metais, o setor está exposto a derivados petroquímicos, que são utilizados em para-choques, interiores, isolamentos, carroçaria e componentes no capot. Os ligeiros de passageiros contêm entre 150 a 200 kg de plásticos, sendo que esse tipo de materiais estão “diretamente relacionados com os preços do petróleo e do gás e, por isso, tendem a sofrer fortes oscilações de custos durante os choques geopolíticos impulsionados por questões energéticas”.
Uma forma de conter um agravamento dos custos é através de contratos de fornecimento de longo prazo, com preços ficos ou indexados, o que “protege” as fabricantes de “aumentos repentinos”.
“Essa estabilidade permite que os fornecedores protejam as suas commodities ou garantam compras futuras e suavizem os movimentos dos custos subjacentes”. No entanto, se os preços elevados persistirem várias semanas ou meses, “o impacto torna-se estrutural e os custos elevados dos recursos vão afetar negativamente as margens [comerciais]”.
Habitualmente, as margens são protegidas pelas empresas através da transmissão do aumento de custos para os preços pagos pelos clientes finais. Ora, no atual ambiente económico e, em particular, como os preços mais elevados da energia provavelmente vão acelerar a inflação e reduzirão o poder de compra dos consumidores, consideramos um desafio.