Dezenas de infraestruturas rodoviárias estão fechadas ao trânsito, devido ao abatimento do pavimento ou aluimentos de terras nas áreas circundantes das estradas, na sequência da chuva intensa e ventos fortes das últimas semanas.
O caso de maior impacto ocorreu na A1 na quarta-feira, 11 de fevereiro, quando parte do pavimento da plataforma da autoestrada desmoronou, no sentido Norte-Sul, junto ao nó de Coimbra, na sequência da rutura de um dique do Rio Mondego.
A ocorrência levou o Governo a mandar ao LNEC uma avaliação técnica "urgente" à resiliência de todas as estradas após "fenómenos meteorológicos extremos"
“As autoestradas têm sido projetadas com rigor e têm tido o melhor comportamento. As vias secundárias, como estradas nacionais, estradas municipais ou vias agrícolas, eventualmente com outro projeto e gestão, têm outro comportamento de risco”, enquadrou Humberto Varum, presidente do Conselho de Colégio de Especialidade de Engenharia Civil.
Segundo o professor Luís Picado dos Santos, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, “as infraestruturas críticas são muito seguidas, para garantir que nenhuma sai de serviço”. No entanto, “há fenómenos excecionais”, aludindo ao caso da A1, “que podem originar pequenas ou grandes ruturas” no uso das estradas.
Em declarações à CNN Portugal, Humberto Varum referiu, por isso, os “eventos extremos, chuvas intensas, ventos fortes, inundações, com picos nos caudais [dos rios]”, com “impacto significativo” na integridade das estradas. O engenheiro não fala em negligência, mas sim no impacto extraordinário “de uma série de eventos extremos não recorrentes”.
Varum descartou a necessidade de rever normas ou critérios aplicados aos projetos de engenheira. Por outro lado, recomendou maior “cultura de risco” no futuro para prevenir na medida do possível o impacto de situações extremas e gravosas. Isto é, “reconhecer que toda e qualquer decisão [para um projeto de um estrada, seja de que tipo for] tem sempre um impacto no risco, particularmente quando há fenómenos extremos”.
“Perigosidade, vulnerabilidade e exposição [das futuras vias]” devem ser “vetores a ter em conta” com maior insistência, para mitigar o impacto de eventos extremos nas infraestruturas rodoviárias.
Luís Picado dos Santos, por sua vez, em declarações à RTP Notícias, notou que o colapso de infraestruturas rodoviárias pode ocorrer “mesmo que se faça um acompanhamento rigoroso, como já ocorre”.
Tal como Varum, o professor do IST defende que o que está a acontecer em várias estradas e autoestradas não é negligência. Dando o exemplo da A1, fala num “fenómeno raríssimo”, provocado intempéries.
Qual o problema, então? No caso da A1 explica que “teve a ver com a drenagem e configuração do leito do rio”.
“No dique para conter o rio, neste caso a margem direita, houve uma rutura a montante do viaduto da A1 e toda a força da água, que é [por estes dias] um caudal excecional, com mais de 2 mil metros cúbicos por segundo, foi paulatinamente fazendo com que a parte de aproximação ao viaduto, que é em solo compactado, fosse entrando em rutura pela força da água e pela perturbação da resistência intrínseca da obra de terra, pela percolação da água, na inserção dessa água na porosidade dessa obra de terra”, explicou.
Tudo isto deu origem à erosão dos sedimentos da estrada, culminando no abatimento do pavimento.
Acrescentou, ainda, que o cenário atual não “é uma questão de normas”.
No caso da A1, prosseguiu, “a previsão da ação da água pode ter sido feita, para uma cheia de 500 anos ou mesmo milenar”. “Isso quer dizer que, estatisticamente, ocorre apenas uma vez a cada mil anos ou a cada 500 anos. Não quer dizer que não aconteça hoje e daqui a 15 dias outra vez”, explicou, indicando que “quanto mais raro é o fenómeno, maior é o caudal para o qual se dimensiona ou se protege as obras que se querem implementar”.
O desafio, agora, serão as obras de recuperação das vias, uma vez que será sempre necessário, antes de tudo, “conter o rio no seu leito e, ainda que de forma provisória, uma reconstrução do dique para que, em condições mais secas, mais trabalháveis, se possa reconstruir”.
O Governo fala "em semanas" até as obras de reparação ficarem concluídas.
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