O mundo vive em crise energética?

| Revista ACP

A guerra no Irão desestabilizou novamente o Médio Oriente, desde há três meses. Com o Estreito de Ormuz bloqueado começam a surgir as dúvidas sobre as necessidades energéticas de cada país. O que esperar? 

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A guerra no Médio Oriente entre EUA e Irão pressiona há mais de três meses os mercados energéticos globais, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, com especial impacto nos preços do petróleo e do gás natural. Estamos perante uma crise uma energética? E o preço dos combustíveis vai, em algum momento, estabilizar ou voltar para níveis mais comportáveis para os consumidores?

Para o consultor na área da energia Nuno Ribeiro da Silva a situação preocupa, mas o impacto energético e económico estará a ser menos severo que o previsto inicialmente.

Nuno Ribeiro da Silva, que foi governante com responsabilidades na área da energia e liderou durante 17 anos a energética Endesa, foi o convidade do mais recente podcast do ACP.

O especialista considera que a atual situação está longe dos cenários mais críticos registados nos últimos anos, como no início da guerra na Ucrânia.

“Ir ao Golfo Pérsico [onde se localiza o Estreito de Ormuz], criar um quadro de instabilidade, é como entrar no cofre forte do Banco Mundial e começar a mexer nas barras de ouro”, admite Nuno Ribeiro da Silva.

Ainda assim, apesar da gravidade da situação, o especialista argumenta que o mercado global tem demonstrado capacidade de adaptação superior à esperada: “A reação do mercado petrolífero e da indústria petrolífera tem sido surpreendentemente fria, objetiva e eficaz.”

  

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Segundo o responsável, o aumento da produção por parte de países como os EUA, Brasil, Canadá e Venezuela ajudou a compensar parte da quebra de fornecimento proveniente da região do Golfo Pérsico. Só os Estados Unidos, sublinha, aumentaram a oferta em cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo em apenas alguns meses. 

Não obstante, há riscos. “Continuamos vulneráveis e preocupados porque há de facto uma desestabilização geral das rotinas do complexíssimo e gigante mundo do petróleo.”

Consumidores sentem impacto nos preços 

Embora não exista um risco imediato de rutura física de abastecimento na Europa, os consumidores continuam a sentir o efeito da crise através do aumento de preços, sobretudo nas bombas de gasolina quando atestam os seus veículos.

“Temos impacto nos preços e daí ninguém nos tira”, salienta Ribeiro da Silva. “O petróleo, o gás, a energia, está em tudo o que fazemos, rapidamente infeta os preços de tudo e mais alguma coisa.”

O especialista admite que parte da subida de preços resulta também de comportamentos especulativos e da volatilidade dos mercados, alimentada pela incerteza em torno da evolução da guerra no Irão.

Medidas de apoio devem ser temporárias

Sobre as medidas adotadas pelos governos para mitigar o impacto da subida dos preços, Nuno Ribeiro da Silva considera que foram, em grande medida, “as possíveis”.

Na sua perspetiva, o apoio público pode justificar-se no curto prazo para amortecer o choque sobre famílias e empresas, mas não deve prolongar-se indefinidamente.

“É razoável haver um esforço airbag’ para que o choque que aparece nos preços não desregule a estrutura de custos e a estrutura de preços no mercado”, explica. Contudo, defende que “não é sustentável num longo período de tempo”.

O especialista defende ainda que as ajudas devem ser direcionadas para os grupos mais vulneráveis, criticando medidas universais como a redução generalizada do IVA.

“Na política económica é advogado que não se tomem medidas de caráter transversal generalista, mas que existam medidas mais cirúrgicas, mais dirigidas efetivamente às pessoas que têm mais dificuldade.”

Preços vão descer depois da guerra?

Questionado sobre a possibilidade de os combustíveis regressarem aos níveis de preços registados antes da crise, Nuno Ribeiro da Silva admite uma descida gradual caso seja alcançada uma solução diplomática.

“Haverá uma tendência a um abaixamento desses custos”, diz, lembrando que a diminuição não se vai sentir imediatamente.

A recuperação das infraestruturas afetadas, a reposição de reservas estratégicas e a reorganização das cadeias logísticas internacionais "demora vários meses".

Segundo o especialista, mesmo após o fim das hostilidades, será necessário tempo para “repor a logística de transporte que está atascada no Golfo”, recuperar stocks e reorganizar os fluxos globais de energia.

Para já, conclui, os mercados continuam a viver entre a expectativa de uma solução diplomática e o receio de novos episódios de instabilidade, mantendo a pressão sobre os preços energéticos e sobre a economia global.


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