"Fui atrás de um sonho e venci o Dakar"

| Revista ACP

Paulo Fiúza fez história no arranque do ano ao tornar-se no primeiro português a vencer o Dakar, uma das provas de resistência mais duras do mundo. Alcançou o feito num camião, vinte anos depois da primeira participação.

@video=__G---f3y-Y

Aos 50 anos de idade, Paulo Fíuza, navegador português natural de Mafra, gravou o seu nome na história do desporto motorizado nacional: é o primeiro português a vencer o Dakar.

Fiúza alcançou o feito na categoria dos camiões pela Iveco, como navegador do lituano Vaidotas Zala. Com o mecânico Max van Grol, o trio ganhou a prova do campeonato do mundo de Rally-Raid (W2RC) com mais de vinte minutos de vantagem para o segundo lugar

Foi um "sonho de menino" que se realizou, revela o navegador neste ACP Podcast.

O codriver relata que a vitória nem sempre foi evidente, embora a equipa registasse bons desempenhos desde o prólogo.

“A primeira semana não começou como gostaríamos. As primeiras etapas foram muito duras, com muita pedra, e dentro de um camião não se tem a noção de como atacar a zona de pedra, de rios secos", conta. O que falhou? "A pressão dos pneus. [No ínicio] tínhamos um, dois furos por dia e a perder tempo.”

Participar num Dakar dentro de um camião não é mesma coisa que correr num carro. Paulo Fiúza conhece bem as diferenças. Já participa no Dakar há 20 anos e há seis anos esteve mesmo muito perto da glória nos carros, quando terminou a prova no terceiro lugar da geral. Era então navegador do francês Stéphane Peterhansel.

"Um camião obriga a ter mais atenção do que um carro, é veículo de nove toneladas", lembra. E como copiloto, num camião, Fiúza tem de "antecipar muito mais cedo o percurso, as zonas de perigo". "A abordagem é diferente", só a roda de um camião pesa 150 quilos e isso faz toda a diferença em prova, sobretudo quando há furos.

 

Newsletter Revista
Receba as novidades do mundo automóvel e do universo ACP.

 

A chave do sucesso este ano foi a adaptação ao veículo. Como aconteceu? “Fomos jogando com a pressão [dos pneus]”, simplifica Fiúza, demonstrando que o desempenho das equipas no Dakar passa por muitos momentos de tentativa-erro.

"Havia alturas em que o pneu estava muito duro, mais cheio, pensávamos que era o melhor para não furar com aquele piso, mas havia situações que era ao contrário. O pneu tinha que ter um efeito do tipo balão. Fomos experimentando até acertar", diz.

Se na primeira semana de prova, registavam um ou dois furos por dia, na última a equipa só teve três furos, o que, de acordo com o relato do navegador, demonstra a progressão do trio vencedor.

Mas a vitória não se deveu só ao alcance de uma boa performance técnica e de manutenção. O piloto Zala atribuiu mesmo a vitória da equipa à capacidade de navegação de Paulo Fiúza.

O codriver explica tudo, mantendo os pés bem assentes na terra: “Somos todos responsáveis pela vitória, cada um na sua função".

"Fizemos um bom prólogo, ficando em segundo lugar na geral. No segundo dia fizemos terceiro ou quarto na geral e percebemos que tínhamos hipóteses de chegar ao pódio na geral. Com o desenrolar da prova percebemos, ‘estamos cá, quem sabe conseguimos fazer um brilharete e ganhar o Dakar’", afirma.

Mas há um momento de clarividência, em que o touareg (apelido a que se dá ao troféu do Dakar) se torna alcançável.

"Vínhamos no pó e perdemo-nos e há um momento em que digo ao Zala 'não é para aí, é nesta primeira entrada'. Ele exitou um bocadinho mas seguiu a indicação e fizemos o resto do percurso sem pó pela frente. Vinhamos a perder imenso tempo e sem pó conseguimos ganhar tempo ao nosso adversário direto. Esse foi o momento-chave de navegação. Nesse dia subimos a segundo na geral e ganhamos mais ânimo. 'Ok estamos em segundo, só falta chegar ao primeiro lugar'", recorda Paulo Fiúza.

E assim foi. O touareg de 2026 também é português, graças a Paulo Fiúza.


Este e outros podcasts estão disponíveis nas plataformas



scroll up