O Governo já deixou claro que não vai intervir diretamente no preço do gasóelo e da gasolina, não obstante o aumento do custo dos combustíveis nos postos de abastecimento. Para o executivo de Luís Montenegro o problema não está no preço cobrado aos condutores, mas sim na formação do valor da matéria-prima antes da sua refinação em combustível.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, considera por isso que se impõe uma “reflexão” sobre o mecanismo de fixação do preço do petróleo.
“É preciso lançar uma discussão à volta das matérias que dizem respeito à segurança energética, à salvaguarda das cadeias de abastecimento, à transição energética — que é, do ponto de vista europeu, diria eu, o desígnio maior –, a eletrificação da nossa economia, o aproveitamento da nossa capacidade produtiva lá onde nós temos mais capacidade, e aí é claramente no âmbito das energias renováveis”, afirmou em declarações aos jornalistas à chegada da cimeira de países do sul da União Europeia - a MED9 -, em Split, Croácia.
A cimeira em causa tem, precisamente, na agenda uma discussão sobre “as perspetivas geopolíticas e geoeconómicas incertas do Médio Oriente”, e por isso Montenegro defendeu que o momento deve ser aproveitado para uma reflexão conjunta sobre a formação do preço do petróleo, uma vez que o atual “mecanismo foi definido depois da última grande crise dos combustíveis na década de [19]70“.
De acordo com o primeiro-ministro, “é um mecanismo que terá seguramente as suas virtudes, mas que tem hoje, à luz daquilo que está a acontecer, um problema enorme, que é o facto de uma perturbação numa determinada geografia, ainda que ela seja relevante do ponto de vista da produção global, implicar uma alteração de preço em todo o mundo“.
“Veja o caso português: nós compramos petróleo sobretudo ao Brasil e à Argélia. Nós não temos nenhuma perturbação nos nossos locais de origem do produto e, ainda assim, sofremos o efeito de o preço ser fixado. Com base em quê? Com base em mercados futuros, com base numa expectativa, com base numa especulação, com base na intervenção dos mercados financeiros”, lamentou.
Montenegro enfatizou que “isso não está a servir ninguém, porque, neste momento, todos os países do mundo estão a sofrer os efeitos e os impactos do aumento do preço, mesmo aqueles que são produtores”.
“Creio que é necessário que, independentemente das consequências que há sempre, dos conflitos, da instabilidade e, no caso do Médio Oriente, também das condições de navegabilidade, que também colaboram para as alterações e oscilações do preço, é uma reflexão que deve ser feita“, declarou.
Na terça-feira, 6 de outubro, num discurso na sessão plenária do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Montenegro já tinha defendido a uma “resposta coordenada” ao nível europeu para lidar com o aumento do custo de vida, apontando que a “crise energética devido a conflitos internacionais” nos quais a União Europeia não participa “está a ter um impacto grave na vida dos europeus”.