Durante anos, falar de normas Euro significou sobretudo falar dos gases que saem do escape. Com a chegada da Euro 7, essa realidade muda. A nova regulamentação europeia mantém o foco na redução da poluição provocada pelos automóveis, mas alarga o conceito de emissões a outras fontes, como as partículas dos travões e a abrasão dos pneus. Pela primeira vez, estabelece também requisitos específicos para a durabilidade das baterias dos veículos elétricos e híbridos plug-in. A Euro 7 está definida pelo Regulamento (UE) 2024/1257 e aplica-se a automóveis, veículos comerciais ligeiros, pesados e autocarros. Para os ligeiros, a entrada em vigor acontece de forma faseada: a partir de 29 de novembro de 2026 para novos modelos e, um ano depois, para todos os veículos novos.
Os fabricantes, através da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), aceitam as novas regras, mas defendem que é necessário um quadro regulamentar holístico que mantenha a mobilidade acessível a todos, reduzindo, simultaneamente, o seu impacto ambiental. Ou seja, apelam a que os decisores políticos façam mais para substituir os veículos mais antigos e mais poluentes que circulam nas estradas por modelos mais recentes e equipados com a mais avançada tecnologia de emissões. Do lado dos fornecedores, a AFIA, que representa em Portugal a indústria de componentes auto, revela que "as emissões de CO2 dos carros novos diminuíram 7% desde 2021". Os investimentos sucedem-se e, segundo José Couto, presidente da AFIA, os fornecedores apoiam "o desenvolvimento de normas relativas às emissões poluentes dos veículos ligeiros e pesados", bem como um "um quadro regulamentar que facilite a mobilidade limpa e acessível".
Euro 7: o que muda para os automóveis a combustão?
Ao contrário do que chegou a ser inicialmente proposto, a versão final da Euro 7 não representa uma grande redução dos limites dos principais poluentes dos automóveis ligeiros face à Euro 6. Os atuais limites de emissões de escape são, em grande medida, mantidos. A principal alteração passa pela introdução de requisitos adicionais, incluindo a contabilização de partículas ainda mais pequenas. Isto não significa, contudo, que os fabricantes possam simplesmente continuar a produzir os mesmos automóveis.
A Euro 7 exige que o cumprimento dos limites seja demonstrado durante um período de utilização mais longo. Para automóveis e comerciais ligeiros, os requisitos de durabilidade passam a considerar até 200 mil quilómetros ou dez anos. Na prática, isto coloca maior pressão sobre os sistemas de controlo de emissões. Catalisadores, filtros de partículas e outros componentes terão de manter o desempenho durante mais tempo. A regulamentação inclui ainda requisitos de monitorização destinados a garantir que os sistemas responsáveis pelo controlo das emissões continuam a funcionar corretamente.
Travões e pneus entram na equação
Uma das grandes novidades da Euro 7 é precisamente aquilo que não sai pelo escape. A regulamentação introduz limites para as partículas provenientes do desgaste dos travões e estabelece requisitos relacionados com a abrasão dos pneus. E estas regras aplicam-se a todos os veículos, incluindo os elétricos. Um automóvel elétrico não tem emissões de escape, mas continua a produzir partículas através dos pneus e dos travões. Além disso, muitos elétricos apresentam um peso superior ao de modelos equivalentes com motor de combustão, aumentando a importância da eficiência e durabilidade destes componentes. A travagem regenerativa pode, por outro lado, reduzir a utilização dos travões convencionais. A indústria passa assim a ter de olhar para o automóvel como um conjunto. Materiais dos discos e pastilhas, sistemas de travagem e pneus passam a fazer parte da equação ambiental da homologação.
E os carros elétricos?
É aqui que a Euro 7 se distingue das anteriores normas Euro. Um elétrico não tem emissões de escape para cumprir, mas não fica fora da regulamentação. A nova legislação introduz requisitos mínimos para a durabilidade das baterias de tração dos veículos elétricos e híbridos plug-in. Para automóveis ligeiros, a bateria deve manter pelo menos 80% da sua capacidade inicial até cinco anos ou 100 mil quilómetros, consoante o que ocorrer primeiro. Entre os cinco anos/100 mil quilómetros e os oito anos/160 mil quilómetros, o requisito passa para 72%.
Os híbridos plug-in enfrentam uma equação particularmente exigente com a Euro 7 uma vez que continuam sujeitos às exigências do motor térmico, às emissões de escape e às partículas de travões e pneus, apesar da componente elétrica. Em Portugal, a situação é agravada pela ausência de incentivos à compra destes veículos, enquanto o Estado concentra os apoios nos automóveis de emissões nulas. Esta medida poderá ter impacto também no mercado de usados. A capacidade da bateria é fundamental para determinar a autonomia e o valor de um elétrico em segunda mão. Ao estabelecer requisitos mínimos de durabilidade, a legislação cria uma referência para a evolução da bateria ao longo do tempo.
Mais custos, mas também mais longevidade
Para o consumidor, a Euro 7 não deverá representar uma transformação imediata dos automóveis vendidos na Europa. O impacto será progressivo e estará sobretudo relacionado com a forma como os fabricantes desenvolvem os novos modelos. Nos motores de combustão, será necessário assegurar maior durabilidade dos sistemas de controlo de emissões. Nos elétricos, a atenção passa também pela capacidade e longevidade das baterias. Em ambos, travões e pneus entram agora no processo de avaliação.
Toda esta complexidade poderá aumentar os custos de desenvolvimento, engenharia e homologação, embora o impacto final no preço dependa de cada fabricante e da tecnologia utilizada. Ao mesmo tempo, a regulamentação procura garantir que os veículos permanecem dentro dos limites ambientais durante mais tempo. A Euro 7 não é, portanto, simplesmente uma nova norma para tornar os motores Diesel e gasolina mais limpos. É uma mudança mais abrangente na forma como a Europa olha para as emissões dos veículos. O escape continua a ser importante, mas deixa de ser o único foco.Travões, pneus, sistemas de monitorização e, no caso dos elétricos, a própria bateria, passam a fazer parte da equação.
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As 5 principais mudanças
1. Emissões de poluentes limitadas
A Norma Euro 7 uniformiza os limites de emissões para motores a gasolina e gasóleo, fixando-os nos 60 mg/km.
2. Emissões dos pneus e travões passam a ser contabilizadas
A nova norma contabiliza também as partículas dos travões e os microplásticos dos pneus, impondo uma redução de 27% a todos os veículos, incluindo elétricos e híbridos.
3. Maior duração da bateria dos elétricos
A Euro 7 estabelece requisitos para prolongar a vida útil das baterias dos elétricos, reduzindo a necessidade de substituição e os custos associados.
4. Períodos de tolerânciaalargados
Os veículos terão de cumprir os limites de emissões durante 10 anos ou 200.000 quilómetros, o dobro do período atualmente previsto.
5. Novas regras para testesde homologação
Os testes passam a incluir temperaturas até 45 ºC e trajetos mais curtos, avaliando também as emissões durante o aquecimento do motor.