Congestionamento do trânsito motiva uso do transporte público no Porto

| Revista ACP

Os utilizadores considerados "cativos" estão muito mais dependentes do autocarro, enquanto "os que têm escolha" utilizam muito mais a ferrovia, nomeadamente o metro e o comboio.

transito-porto---lusa

As dificuldades associadas ao uso do carro no Porto, como o trânsito e a procura de estacionamento, estão a motivar a utilização intermodal de transportes públicos, de acordo com um artigo científico feito por investigadores da Faculdade de Engenharia.

"Uma das motivações para a intermodalidade [uso de mais que um meio de transporte nas viagens diárias] que nós verificámos [prende-se com] as desvantagens do automóvel. Temos aqui um grupo de utilizadores intermodais que percecionam que a dificuldade em usar o automóvel para aceder ao município do Porto, em termos de congestionamento e falta de estacionamento, os leva a procurar ser intermodais", disse um dos investigadores, João Teixeira, à Lusa.

Esta tendência para a intermodalidade e uso dos transportes públicos verifica-se "embora não seja uma política pública dificultar o automóvel", pois, "atualmente, em Portugal isso não acontece, nomeadamente no município do Porto não há políticas que restrinjam diretamente o automóvel", diz João Teixeira, apontando o artigo que "as inconveniências percebidas do uso do carro no Porto podem funcionar como um incentivo informal para soluções intermodais, mesmo na ausência da intervenção de políticas explícitas" nesse sentido.

Em causa está o artigo "Viajantes intermodais contra monomodais: evidência de um estudo comparativo no Porto", publicado em junho e elaborado também por Miguel Lopes e António Couto, do Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente (CITTA) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, envolvendo 3.446 respostas validadas num inquérito feito em 2024.

O artigo distingue os utilizadores monomodais (utilizam apenas um meio de transporte nas deslocações diárias) dos multimodais (utilizam mais que um), verificando que "a intermodalidade está muito associada ao uso do transporte público, em contraste com a monomodalidade que está muito mais associada ao automóvel".

Nas motivações para se usarem transportes públicos, nos viajantes intermodais as razões mais referidas são a existência de ligações diretas (38%), seguidas do preço/custo (32%), percentagens que descem nos monomodais (22% e 26%, respetivamente), notando-se ainda "diferenças mais pronunciadas" entre ambos em fatores relacionados com o serviço e contexto.

Assim, os intermodais "dão muito maior importância à alta frequência de serviço (34% contra 14% [dos monomodais], rapidez (30% contra 15%), preocupações ambientais (20% contra 7%) e evitar o tráfego (18% contra 7%)", pode ler-se no estudo, em que os números relacionados com a dificuldade de estacionamento também rondam os 19% nos intermodais contra 12% nos monomodais.

 

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Estes indícios levam os investigadores a crer que "se houver uma política de restrição do automóvel que seja mais assertiva, é expectável que isso leve a que os utilizadores atuais do automóvel procurem alternativas", nomeadamente "usando o automóvel para aceder à periferia do município do Porto e depois fazer o resto da deslocação por modos mais sustentáveis, nomeadamente o transporte público".

Dentro dos utilizadores intermodais, há os que não têm alternativa, que, segundo João Teixeira, são "pessoas com mais baixos rendimentos, menores níveis de escolaridade e que estão particularmente associados ao uso do autocarro", percecionando este serviço "como mau", e "pessoas que até têm acesso ao automóvel, mas, no entanto, percecionam vantagens em serem intermodais".

"Os utilizadores que nós designamos como cativos estão muito mais dependentes do autocarro, enquanto os que têm escolha utilizam muito mais a ferrovia, nomeadamente o metro e o comboio", disse ainda João Teixeira à Lusa, algo potenciado pelas "vantagens competitivas que o autocarro atualmente não oferece em termos, por exemplo, de fiabilidade, frequência e competitividade em termos de tempos de viagem", pois "estão frequentemente empancados no congestionamento existente" e "não cumprem horários, chegam atrasados, há cancelamentos".

Por Agência Lusa

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